O artista e pesquisador Tales Frey mora em Portugal e assistiu lá ao espetáculo Pororoca , da Lia Rodrigues Companhia de Danças. Aqui, ele contribui com o idança enviando uma breve crítica do mais recente trabalho da coreógrafa carioca.

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Se para a curadoria do Théâtre de la Ville de Paris, uma das mais importantes casas de espetáculo do planeta,  o desaguar da Pororoca de Lia Rodrigues está ao nível da Tanztheater Wuppertal de Pina Bausch, ou ainda, da Merce Cunningham Dance Company, e pode também fazer parte integrante da programação oferecida pelo espaço, a “invasão” de presença tão intensa não pode ser diferente para o Museu Serralves, espaço de renome internacional, situado na cidade do Porto, em Portugal, o qual abriu portas para esse trabalho em abril de 2010.

Lia Rodrigues, que desde a década de 70 afirma seu discurso através da dança, elabora, juntamente com os bailarinos da sua atual companhia (Lia Rodrigues Companhia de Danças), cuja sede é na favela da Maré, o espetáculo Pororoca.  É válido ressaltar que o processo de criação se deu a partir de improvisações e que, segundo a artista, “o reencontro entre os bailarinos vai tecendo o trabalho”, ou seja, o coletivo é um organismo vivo em constante mutação e evolui de forma incomensurável.

Antes do início do espetáculo, Lia coloca-se no meio do palco, com os pés no mesmo nível da plateia, para informar sobre o trabalho a ser assistido. Informal, o “bate-papo” apresenta, além do trabalho desenvolvido pela artista e pelo grupo e o contexto em que estão inseridos, o valor daquela troca que virá a seguir – embora essa troca já esteja acontecendo em parte -, pois evidencia o quanto as artes vivas (teatro e dança) são especiais nesse sentido e podem proporcionar esse encontro, por exemplo, entre os artistas brasileiros dessa companhia de dança e a plateia portuguesa.

Pororoca (o espetáculo) é mesmo um encontro, assim como o fenômeno natural provocado pelo encontro das águas do rio com as águas do mar. Esse encontro de correntes contrárias é resultado de um delicado balanço de fatores da natureza e, utilizá-lo como ponto de partida para elaboração de um espetáculo não só dialoga com esse presente instante em que uma série de fenômenos naturais têm vindo à tona, talvez em resposta às ações do homem, mas também com a necessidade da troca, do choque, da mistura que é cada dia mais intensa em um mundo que se torna a cada segundo mais globalizado. O mesmo se dá na arte e Lia tem consciência disso quando acarreta questões da pluralidade artística e cria uma fusão das artes cênicas com a música.

Palco vazio, até que o grupo de bailarinos entra como um arrastão, misturando cores, objetos e, corporalmente, ilustra a invasão de uma pororoca antropofágica. O calor das cores, a diversidade de tonalidades de peles, os sons emitidos pelos bailarinos imitando animais, as laranjas compartilhadas e devoradas por eles em cena com tamanha vontade, o sexo, enfim, essa miscelânea atribui ao trabalho um caráter especialmente brasileiro, carregado daquilo que o Tropicalismo e o Modernismo no Brasil foram únicos em um âmbito global e que tanto nos dá orgulho. A conceitual sujeira do palco lembra o chão da cidade do Rio de Janeiro em determinadas regiões, forrados de sacos plásticos, roupas velhas, objetos esquecidos, deixados ou perdidos que poluem o visual desses ambientes.

Não há música mecânica; esta se dá com a respiração interminável e cada vez mais intensa dos corpos que se encontram e reencontram de uma forma (des)equilibrada. A ausência dessa música mecânica reforça o encontro entre observador e obra, pois, à medida em que a calmaria é instaurada em cena (quase nunca), a tosse do espectador, a risada, o salto da madame indo embora por não ter suportado ver o calor e a sexualidade tão latente do espetáculo é diluído no som dos corpos que chocam-se no espaço. John Cage certamente se orgulharia de ver tamanha repercussão do seu conceito de música que continua sendo pensado no século XXI, no que diz respeito ao silêncio em 4:33, onde provou que não existe uma absoluta ausência de som e, com isso, proporcionou uma reflexão sobre o integrar desses sons. E se a música de ruídos produzida na primeira década do século XX pelos futuristas fez Cage chegar a essa conclusão, 4:33 se faz também perene nessa nossa primeira década não só para ser pensada na música, mas nas artes como um todo e Pororoca é uma prova disso.

Tales Frey é encenador, crítico de arte, artista performático e videoartista. É graduado em Artes Cênicas com habilitação em Direção Teatral pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), tem especialização (latu sensu) e mestrado (strictu sensu) em Estudos Artísticos – Teoria e Crítica da Arte pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, em Portugal. É diretor da Cia. Excessos.