Rumos Dança 2007 – Subjetos em cena

Nesta sexta-feira, antepenúltimo dia de Rumos Dança, Marcela Levi apresenta In-Organic (foto), propondo um jogo de palavras que pressupõe uma fronteira borrada entre o orgânico e o inorgânico. “Hoje em dia, com todas as próteses que a gente usa, todas as guerras televisionadas, todas as relações digitais, o orgânico e o inorgânico estão bastante imbricados”, diz a artista. Marcela usa, como ela mesma chama, subjetos em cena. São objetos deslocados, desfuncionalizados e subjetivados. “O que me interessa no encontro desses objetos (que funcionam como presença simbólica do outro) com o meu corpo (que é carne, memória, subjetividade, atravessamentos) é que uma terceira coisa surja, que não é nem um nem outro, mas que possua os dois contidos. Essa é a estratégia que funciona como um eixo do meu trabalho. O que discuto especificamente é esse corpo espetacularizado, automodulável”, explica. Marcela Levi também expõe na obra a preocupação com a violência que assola o Rio de Janeiro, onde nasceu. “Sou carioca, moro na cidade e estou assustada com a bárbarie brutal que estamos vivendo. Mas o que mais me incomoda é a banalização dela e me revolta, principalmente, os meios de comunicação. A violência é tratada com requintes de crueldade. Procuro tocar um pouco nesse assunto. Uso a ‘minha dança’ como uma forma de discurso. É poder partilhar coletivamente incômodos, questões, coisas que me atravessam como cidadã”.

O segundo espetáculo da noite, Gêmeos, de Alex Cassal e Michelle Moura, tem como ponto de partida a história dos irmãos John e Michael, gênios autistas que mostraram uma incrível capacidade para a memória numérica. “A idéia era pensar como seria um mundo feito de números, que são outros códigos, outros signos que se conectam ao nosso corpo. Começamos buscando uma série de relações de passagem, de camadas, como criamos frases de movimento para uma parte do corpo e transferimos para outra, como criamos algo pra um e fazemos para os dois”, diz Alex. A performance explora como que pessoas que têm outra maneira de se relacionar com o afeto, com a realidade, se comportam.
Este é o primeiro trabalho que Cassal e Michelle realizam juntos. “Optamos que esse processo fosse diferente do que a gente costumava fazer normalmente – individualmente falando. Propusemos um exercício físico e a partir do que acontecesse ali, começávamos a ver as idéias. Antes partíamos da idéia já formada”, revela Michelle, que vê no Rumos Dança a oportunidade de aprofundar a pesquisa coreográfica. “Esse dinheiro faz com que possamos estar em um estúdio pesquisando mesmo. Poucas vezes se pode ter isso. Nessa prática é que conseguimos que nosso trabalho não seja superficial”, conta a criadora. Para Alex, participar do evento é um grande impulso profissional. “Estamos sempre trabalhando no negativo, então ter verba para começar a fazer e ter um evento em que ele será apresentado aos nossos pares, já motiva a nos movimentar em direção ao ‘vamos lá'”, diz o artista.